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Por favor não matem os velhinhos

por Adriana Messias, em 10.06.18

Escrevi este texto em resposta à publicação feita, no facebok, da menina que segura o tão conhecido cartaz contra a eutanásia. Não era suposto ser um post, não o escrevi com esse intuito. Escrevi-o numa viagem de comboio para Lisboa, de uma assentada, enquanto continha algumas lágrimas que não queriam recordar o que aconteceu já há quase dois anos. Mas hoje recebi visitas cá em casa e disseram-me que tinham gostado muito do que escrevi. Pensei que seria boa ideia adicioná-lo à minha coleção de pensamentos aqui no blog.

 “Em vez de fazerem estás manifestações e de defenderem ideias devido a estatísticas e aquilo que vêm e ouvem no dia à dia, deviam era ir a uma unidade de cuidados intensivos ou de cuidados paliativos, sentarem-se ao lado das pessoas pelas quais saíram à rua em "defesa" e dizerem-lhes quais são as vossas convicções à cerca do sofrimento e vida dos que lá estão internados.
Não se preocupem que eles não se vão zangar convosco. A maior parte não fala, a maior parte já não abre os olhos, a maior parte já morreu e só lá ficou o corpo para que os familiares possam visitar. Os que falam e abrem os olhos já não são o que foram, já não pensam nem os olhos brilham como os dos vivos. Adoro a vossa ideia romântica de que, os que estão à espera da morte têm uma palavra a dizer sobre o seu tratamento. Deviam, mas o normal é serem os familiares a decidir...e não podem pedir a alguém que "mate" a mãe, o pai, o marido/mulher, etc.
Claro que não sabem estas coisas, ainda bem que não sabem. Ainda bem que nunca tiveram de assistir ou ouvir.
A UCI é a unidade mais sossegada de um hospital, só se ouvem as máquinas que apitam por tudo e por nada. 
Eu passei mais tempo na uci do que aquilo que queria. O meu pai, que é médico, levava-me para o trabalho dele (na uci) quando não havia ninguém para tomar conta de mim. 
Eu brincava lá, no gabinete dos médicos, via o quadro onde escrevem o nome a cama e o diagnóstico, ouvia as máquinas, via os doentes passarem para o bloco operatório e chegarem do bloco operatório. Há hospitais que conheço como a palma da minha mão e devo dizer que raramente as coisas me faziam impressão.
Mas não era só quando o meu pai não tinha onde me deixar que eu ia para hospitais. 
A vida deu-me um avô doente. Tinha diabetes, epilepsia, faltava-lhe uma perna que lhe foi tirada na véspera do meu batizado, etc etc etc. Ele viveu normalmente durante alguns anos, depois piorou muito. Foi então que comecei a fazer visitas regulares a hospitais.
Ao hospital de Beja, ao hospital de Almada, ao hospital de Setúbal entre outros. Ouvi a minha avó dizer vezes sem conta "desta é que ele já não aguenta. Já comprei a roupa para o funeral", chegou ao ponto de até gozarmos com ela porque o avô era imortal e sobrevivia sempre. E assim foi, durante anos. O telemóvel do meu pai tocava e lá íamos nós.
Mas ouve uma vez que foi pior que as outras. Foi internado no hospital de Almada e o meu pai moveu os médicos que lá estavam para que tivesse o tratamento VIP que sempre tinha e teve, infelizmente. Ficou internado vários meses, tinha paragens cardíacas todas as noites entre 7 a 15 vezes por noite, sendo que algumas delas duravam meia hora, mas o meu avô nunca morreu. Ele não estava em si, já não era ele. Mas a medicina não o deixava morrer porque era pai do meu pai. As paragens duraram tanto tempo que quando melhorou os músculos que envolviam a caixa torácica não tinham capacidade para o fazer respirar sozinho. Foi então que o visitei. Tinha recusado vê-lo porque sabia como era a UCI e não queria que a minha última imagem dele fosse aquela. Mas depois de muito insistirem eu fui. 
Entrei pela porta das visitas (sem o cartão mágico do meu pai que abria sempre as portas todas) vesti um avental descartável como o que uso para dissecar nas aulas, coloquei luvas e entrei, sozinha sobre o olhar atento dos médicos que sabiam que o meu último nome era Messias. Percebi que tinha sido o maior erro da minha vida...não queria ter visto as marcas dos choques no peito dele, não queria ter visto o que a medicina lhe fez numa tentativa desesperada de manter os que o rodeavam satisfeitos por respirar (por máquinas em sofrimento). A minha visita não durou mais que cinco minutos. Como já disse, as pessoas raramente falam. Pedi-lhe desculpa por não ser eu a decidir, porque se tivesse sido aquela "vida" que ele levava há meses já teria acabado. 
O sofrimento dele continuou o verão todo e terminou uma semana antes de eu fazer dezanove anos.
Eu e o meu avô perdoamos-vos a ignorância e inocência das vossas ideias românticas. 
Eu e o meu avô perdoamos os médicos que não conseguem viver com a ideia de matar ativamente uma pessoa.
Eu e o meu avô perdoamos aqueles que pela sua fé não deixam que alguém tire a vida a alguém.

"Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem".”

 

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