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Quais, quais, oliveiras, olivais

por Adriana Messias, em 24.10.17

Era uma vez um senhor velho e uma menina pequenina, era uma vez os laços que os união e a musica que os acompanhava. Era uma vez o baixo Alentejo e o cante alentejano. Era uma vez uma historia de amor, coragem, tristeza e dor. Era uma vez um avô e uma neta.

Em semelhança ao post que escrevi em homenagem às mulheres da minha família, hoje decidi escrever uma homenagem a um homem muito importante na minha vida.

Nunca conheci o meu avô bem de saúde. Desde que nasci que ele carregava consigo um historial impressionante de doenças, uma perna postiça e uma data de outros episódios médicos não muito felizes. Mas ao contrário do comum dos mortais eu também nunca conheci o meu avô triste, nem nunca o ouvi dizer mal do que tinha. Normalmente são aqueles que mais problemas têm que encaram melhor a vida, e o meu avô não era exceção.

Recuemos então aos tempos em que a minha vida era simples e tinha como única preocupação comer quando tinha fome. O meu avô ia buscar-me à escola, de carro, com a sua perna a serio e a amiga a fingir. Eu ia para a casa deles e brincava que me fartava. Ás vezes o meu avô sentava-se comigo à janela e cantava (cantava mesmo muito bem), musicas que agora sei serem cantares alentejanos mas na altura, para mim, eram musicas que só o avô conhecia (aqui na cidade os cantares alentejanos são modas mais recentes). Cantávamos os dois, e éramos felizes. Ele com dores e eu sem preocupações. O meu avó era um exemplo de coragem e força de vontade para mim, usava-o imensas vezes quando eu ou outra pessoa não conseguia fazer alguma coisa porque era difícil, eu dizia orgulhosamente "olha, o meu avô conduz um carro normal e só tem uma perna". Nunca conheci minguem com tanta capacidade de resiliência perante as dificuldades (que não eram poucas) da vida. 

Para o mundo o meu avó morreu este ano, num dia que não sei precisar mas depois de uma frequência minha na faculdade. Para nós (para mim e para ele) morreu há mais de 6 anos. Não sei quem mais reparou, ou se era mesmo um segredo só meu e dele. Morreu quando deixou de sair à rua, quando já não cantava, quando precisava de ajuda para levantar a perna a fingir e quando já não podia ir buscar-me à escola. Foi nessa altura em que o meu avo (o homem mais forte do mundo) perdeu a força e redimiu-se à sua insignificante existência. Morreu-lhe o espírito e a alma, ficou só o corpo para encher o coração daqueles que precisavam e não reparavam que a vida já não o habitava. Muitos anos depois de o ouvir cantar pela ultima vez tive o prazer de o ouvir cantar internado no hospital, mesmo sem força e com a voz a faltar-lhe, cantou para mim, uma ultima vez.

A sua perda física ainda não a superei. E por isso é que escrevo sobre o assunto. Não porque mais alguém para além de mim tenha de saber desta historia, mas porque quero que ele saiba. É uma homenagem à sua força, e ao exemplo que foi para mim à sua luta e vontade de vencer e viver. Por tudo aquilo que me ensinou enquanto pode, inclusive as musicas que hei-de guardar comigo até eu morrer também.

De mim para alguém que, ainda hoje, vive em mim.

Um abraço muito especial Avô,

Da tua neta.

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2 comentários

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De Aninhas a 25.10.2017 às 21:39

É uma bonita homenagem ao seu avô. Eu, apesar de o meu avô ter partido há uns 50 anos era eu miúda, recordo-o sempre com mta saudade! Felizmente os meus avós foram sempre saudáveis, foi a idade que os levou, meu avô com 93, minha avó 97. Qdo me lembro deles ainda vem a lágrima ao canto do olho:-(. Tb somos alentejanos, e vivo no alentejo, e adoro o cante alentejano, e fado castiço. Um abraço de conforto.
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De Anónimo a 25.10.2017 às 23:04

Gostei muito do que escreveste e compreendo cada palavra. Uma das coisas que descobrimos na ausência, na morte se quisermos ser precisos é a quantidade de vivências que nos habitam, uma espécie de consolo de uma efemeridade quase eterna. Deve ser esse consolo que o teu avô hoje sente se puder conhecer esta homenagem. Deve ser esse o consolo, a maravilha das palavras que encontraste para falar dele. É isto que me agrada quando escrevo, é lá que me encontro sempre mais. Beijinhos da madrinha

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