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Homenagem às mulheres da minha família

por Adriana Messias, em 09.09.17

Na minha família o sexo feminino domina numericamente. Somos muitas, muito diferentes e todas muito especiais.

Costumo dizer que fiquei com os defeitos de cada pessoa da família. O mau feitio da minha mãe, a enorme habilidade de partir (no sentido literal da palavra) tudo o que me rodeia e ser muito desastrada como a minha tia, a capacidade de tornar tudo um drama como a minha avó materna, uma certa irreverencia da minha madrinha, lágrimas infinitas como a minha bisavó, a distracção da minha tia avó, alguma descortesia da minha avó paterna, entre outros.

No outro dia estava a pensar nisto e percebi que não herdei só os defeitos, há muitas qualidades que me são inerentes por causa de todas elas, não só em termos "genéticos" como também em atitudes que ganhei por as ver. Outro motivo pelo qual estou a escrever sobre estas mulheres é o facto de a vida as ter brindado com variados intempéries, mas, já dizia o outro, "Quem quer passar além do Bojador / Tem que passar além da dor." e elas assim o fizeram, elegantemente. O que por si só é um grande ensinamento. Como dominar a vida mesmo quando está indomável. Não sou, nunca fui, nem nunca hei de ser capaz de chegar ao pé de alguém e por palavras audíveis dizer aquilo que penso e agradecer, e por isso decidi dedicar-lhes um post especial.

Recuemos ao tempo da Felicidade, a minha bisavó. As memórias mais marcadas que tenho da minha infância são as dos dias de verão passados com as minhas mil avós alentejanas. Acordava na cama da minha avo com o barulho dos clientes que faziam fila na loja da minha tia avó e o meu nariz era invadido por um aroma intenso a café com leite, manteiga sem sal e torradas. Na altura, para mim, eram dias banais mas com a liberdade que não tinha em casa, primeiro porque estava no Alentejo e depois porque estar rodeada de mil avós significa mil vontades cumpridas a toda a hora (até podia ver os morangos com açúcar sem ser às escondidas!). Agora que penso nestes tempos a palavra que melhor os descreve é mesmo Felicidade e a mulher que a personificada era enrugada, tinha cabelos brancos e vestia-se sempre de preto, mas para além do seu ar sério e cansado era bondosa, calma, pura, tinha compaixão, ternura e muitas outras qualidades que entregou às duas filhas e que estas, depois, partilharam comigo também. Mas a felicidade desapareceu, não se pode ser feliz para sempre acho eu. E uns anos mais tarde a Glória acompanhou-a, num dia horrível algures no tempo, depois de uma Páscoa normal, mudando a minha vida não só pela ausência que pesa como também por me ter apercebido que tudo pode acontecer, até aquilo que achamos que só acontece aos outros.

As minhas mil avós ficaram reduzidas a uma, mas a vida continua, e às vezes ainda cheira a café com leite e torradas.

A outra avó, vinda de um Alentejo mais solitário, criou-me como sua filha e uma vez depois de ter feito alguma coisa que uma criança não deve repetir, disse-me "Não faças o que a avó faz que a avó é filha do vento" ao que eu respondi "Eu também quero ser filha do vento". E Deus desceu à Terra para me fazer a vontade, o meu lado mais intempestivo e desenrascado provem dela, certamente.

As três da geração seguinte, a minha mãe, a minha tia e a minha madrinha, têm um lugar especial, talvez porque a idade é mais próxima da minha em comparação com a das outras mulheres, mas a realidade é que uma parte considerável de mim é feita delas.

Têm duas qualidades em comum. Em primeiro lugar, a arte, que se manifesta em cada uma delas de formas diferentes. Na habilidade de desenhar e pintar maravilhosamente bem da minha mãe, na capacidade de escrever com uma leveza impressionante (independentemente do tema) da minha madrinha, e na elegância quase artística que a minha tia carrega. Gosto de acreditar que a minha veia artística é uma junção das três.

E depois, a força, todas elas são muitíssimo fortes em qualquer circunstancia.

Quanto às diferenças, são mais que muitas, o que para mim é ótimo. Pensam e vêm o mundo de formas diferentes, e eu concordando ou não aprendo com isso. Porque em cada discussão, em cada sorriso, em cada choro, eu guardo um bocadinho delas, e isso faz de mim uma pessoa melhor e mais completa.

Um dia talvez eu as brinde com algum tipo de conhecimento que tenha adquirido sabe Deus onde, talvez as encha de orgulho e as transborde de alegria, um dia talvez seja até tão mulher quanto elas. Por enquanto, continuo a ser menina pequenina, e entre mim e as mulheres da minha família há muita gratidão da minha parte, hoje e para o resto da minha vida.

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